Apesar de o volume de materiais produzidos praticamente não apresentar alteração, os valores pagos pela sucata despencaram até 80%, sinal de que nem mesmo o mercado de recicláveis está imune à crise financeira, desencadeada no Brasil no último trimestre do ano passado.
É o caso do alumínio, que nas cooperativas de reciclagem era comercializado por até R$ 4,00 o quilo antes da crise e, agora atinge no máximo o preço de R$ 0,90, o que demonstra que este negócio, que nos últimos anos só apresentou crescimento e passou a ser visto também como um mercado de atuação social, passou a sentir os efeitos dos problemas vividos pelas empresas. E para equilibrar a conta da oferta e demanda, o preço da maior parte dos materiais foi desvalorizado.
Com isso, até mesmo os catadores de lixo que não são cooperados ( mas andavam pelas ruas em busca dos materiais) raramente são vistos fazendo o trabalho, já que um dos motivos que impulsionava este mercado era justamente a fonte de renda.
Em Campinas, funcionam 14 cooperativas de lixo reciclável. Elas recebem o material coletado pela Prefeitura e possuem, também, seus próprios mecanismos de arrecadação de plásticos, vidro, papel e alumínio. “Temos 21 cooperados. Mas estamos fazendo revezamento e cada equipe trabalha uma semana, pois o valor a ser dividido já está muito baixo”, conta a presidente da Cooperativa Santo Expedito, localizada na Vila Castelo Branco, Adriana Cristina Leite Silva.
Isso não significa que o volume de material recolhido pela cooperativa foi reduzido. Em média, os cooperados separam e embalam 12 toneladas de materiais por mês. “Nem mesmo durante o Carnaval, período em que o volume de produtos recicláveis aumenta, houve alguma melhora. Pode até ser que tenha aumentado o volume de lixo, mas os catadores não estão recolhendo mais, ficando tudo à cargo dos caminhões da Prefeitura”, diz.
Além do alumínio, os outros materiais também estão desvalorizados. O papelão teve o preço do quilo reduzido de R$ 0,90 para R$ 0,05. A sucata de ferro também não é comprada por mais de R$ 0,05, mas já chegou a R$ 0,60. Na linha dos plásticos, o artigo mais valorizado é a garrafa pet, que já chegou a custar R$ 1,60, mas hoje é comercializada a R$ 0,90 o quilo.
Esta desvalorização no valor dos preços pagos pelos materiais recicláveis atingiu diretamente o rendimento de quem vive deste negócios.
No caso dos cooperados da Santo Expedito, o valor mensal dos rendimentos está em cerca de R$ 230,00. Antes da crise, cada um recebia cerca de R$ 500,00. “Eu pesquisei em mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo para saber se esta situação era local ou não. E descobri que é uma crise que atinge todas as regiões. Acho que as empresas também se aproveitam desta questão da crise para pagar menos para a gente. Porém, não acho que este seja um momento para desanimar e fechar as portas. Estamos há seis anos neste trabalho, e não vamos desistir.”
De acordo com dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), o quilo do ferro para reciclagem caiu 62% no Estado. O papelão teve o preço desvalorizado em 14%. A queda no preço do plástico atinge 25%. Na média geral, o alumínio foi desvalorizado em 47%.
A organização, inclusive, denunciou, no mês passado em Brasília, que a atividade foi sensivelmente prejudicada pela crise financeira internacional e que, se algo não for feito até o próximo mês de abril, os trabalhadores terão que migrar para outras atividades informais. O que o MNCR pede ao governo são incentivos para manter a atividade.
O coordenador do Programa Economia Solidária, da Secretaria Municipal de Trabalho, Marcelo Freire de Lima, diz que as 14 cooperativas de material reciclável que possuem relação com a Prefeitura estão realmente numa situação de dificuldade, que somente não é pior porque algumas atuam como incubadoras e funcionam como um “colchão de amortecimento” para os momentos de crise.
“Elas fazem compras antecipadas, ficam com estoques e possuem um fundo gestor para os piores momentos, já que também possuem uma participação política, com prospecção de mercado e eliminação de alguns intermediários. São ações propositivas e articuladas”, explica.
Na opinião de Lima, a crise financeira até influencia em parte esta condição atual do mercado de recicláveis, uma vez que há mais oferta que demanda. Porém, há outros componentes, como o efeito da pressão sobre as cooperativas. “É um mercado predatório, pois o reciclável hoje é fonte de matéria-prima e a indústria já coloca na formação dos custos esse material como regular. Por isso, acho que existe um pretexto para todo tipo de malandragem.”
De qualquer forma, Lima diz que espera uma reversão desse quadro em breve, já que somente das cooperativas com relação com a Prefeitura dependem 650 pessoas cooperativadas.
Para o presidente do Centro de Referência em Cooperativismo e Associativismo (CRCA), uma organização não-governamental (ONG) que incuba as cooperativas de materiais e a Reciclamp (central de vendas virtual das cooperativas associadas), José Ronaldo Salles Fernandes, a situação não está fácil, especialmente para o material ligado a papel.
“Quando o preço começou a despencar, a Reciclamp tomou medidas para amenizar os impactos do problema e, mesmo quando a indústria deixou de comprar, nós continuamos adquirindo o material das cooperativas associadas e fizemos estoque. Mas isso foi até janeiro, pois o dinheiro acabou”, avisa.
No caso do papelão, apenas do preço reduzido nas indústrias, pelo menos estava tendo demanda, diz Fernandes. “Agora temos o material estocado num depósito do DLU (Departamento de Limpeza Urbana). Esperamos que o mercado melhore. Para o papel, hoje nem tem mercado e o preço está zerado.”
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